Felicidade é isso

16 Nov

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Felicidade é isso, qualquer coisa linda cá dentro. Que se ilumina. Bem no lugar dos afetos. Onde bomba mais forte o sangue que dá vida. É um momento mágico. Um respirar depurado e cristalino. Um lugar de conforto, que acontece. Uma lareira de outono com brasas quentinhas sempre inflamadas. A crepitar de alegria.

Felicidade é isso: um momento, umas horas, um dia inteiro desde o primeiro raio ao crepúsculo que se ilumina. Que nos ilumina. E nós iluminamo-nos. E nós somos capazes de qualquer coisa, à luz iluminada dessa força criadora.  Somos pássaro por momentos, por um dia inteiro do nascer ao pôr-do-sol. Somos harpa com vida própria, que não se cansa de tocar. Somos flauta. Somos poesia.

Quando a sinto chegar preparo um banquete para recebê-la. Somos velhas amigas. Ainda que passemos muito tempo sem nos encontrar. Ou sequer avistar. Mas existe entre nós um elo genuíno. Um laço que se encadeia e volta a encadear. Como se fosse a primeira vez. Como se fosse a milésima vez. Com uma enorme graça. E harmonia. Felicidade é isso. É não sei o quê bom, que nos apazigua e incendeia.♥

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Por aí, do “Diário dos dias do fim”

7 Nov

 

Tenho andado por aí! A espairecer, sempre que a chuva me dá uma folga.  Absorvendo a paisagem que é absolutamente maravilhosa de qualquer ângulo. A qualquer hora. Sobretudo no outono, com campos verdejantes a perder de vista, salpicados de cores terra. De aqui, de onde estou agora, distingo umas pinceladas vermelhas e amarelas à sombra de um pinheiro. Não há vento, apenas uma aragem que cheira a limões. Abro a minha janela para absorvê-la, por inteiro! É quarta-feira e há sol.

Tenho andado por aí! Dia e noite, à volta dos meus prazeres. Com a lua chegam mais os livros, a malha (tem um efeito profundamente relaxante em mim. estou a fazer um casaco bem quentinho, pelos joelhos) enquanto ouço a informação na televisão, e novamente os livros. De dia escrevo, anoto ideias, preparo coisas, vou ao ginásio. Levanto-me cedo e sento-me ao computador a ler os jornais.

E entre umas coisas e outras, vou entretendo os dias com alegrias simples: no fim de semana plantei coentros e menta, as raízes enterraram-se na terra com uma determinação admirável!, agora só quero vê-los crescer. Antes tinha passeado com uma amiga minha, de infância, pelo campo. Regressámos a casa pela margem do rio no sentido descendente. Parámos para visitar uma pequena povoação. Havia sol também a essa hora que entrámos no monte pequenino e cheio de graça, de paredes brancas. E os pássaros e os galos cantavam. E os cães ladravam. E os perus juntavam-se à orquestra dos animais da quinta. Todos juntos recortando o silêncio do lugar, do lado da planície e dos cerros.  E a minha amiga e eu apanhávamos romãs quase silvestres, pequenas, vermelhas-rosadas por fora, com bagos suculentos da cor do sangue por dentro. ♥

30 de outubro, do “Diário dos dias do fim”

30 Oct

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Mais um dia e entramos em novembro. A chuva voltou ontem à noite. Ouvia-a pouco depois de me deitar. Caía determinada, abrindo riachos entre a calçada. Alagando o limoeiro. E afogando a salsa no canteiro por baixo da minha janela, no quarto onde não dormia.

Durante o dia tinha havido frio, muito frio, com uma nuvem cinzenta a pairar sobre a vila. Os montes brincavam às escondidas, ao ritmo das nuvens. Era o único alento. Tapa. Destapa. Adivinha o que vem a seguir. Deixei-me ir no jogo, o único que me entretém os dias quando a alma pesa, se afunda, e eu ainda tenho vontade de manter-me à tona numa distração bonita.

Agora, ora chove ora faz sol. Está frio, e ao sol aquece. É outono. E eu que tanto o quis, sinto-me asfixiar neste cenário bucólico, tão longe dos meus afetos. Tão longe dos dias felizes.

Há dias em que faço de conta. Que me integro. Que me adapto. Que sou capaz. Que não estou confusa. Que não tenho inveja (boa) das notícias boas que me chegam de longe. Que não tenho inveja das aventuras que outros ousam. Há outros, em que estou farta de fazer de conta. Não quero fazer de conta. Deixem-me dizer que dói muito.

Acordei com a chuva. Agora há sol. Uma inconstância estirada na manhã que se alonga pela tarde.  Em bicos de pés, bate-me no vidro da janela com diamantes em bruto e raios de luz.  E eu perto dela, dessa janela, confirmo este sentir inquieto que se revolta. Que se queixa. Que se lamenta descendo aos infernos da vitimização. São dias tão pesados! Horas tão duras. De um silêncio sem fim! Mas desse que não traz paz! Mas quem sabe?, talvez amanhã eu possa desenhar palavras com flores e corações! ♥

Relaxar

26 Oct

2018-10-26 17.50.35Não vejo a hora da hora do aconchego! Fim de tarde, lusco-fusco. Um livro para ler, um copo de vinho (tinto, Bio, produto local) para bebericar. A entrar no fim de semana – e na noite – devagar. Docemente. Engano o desejo de outra coisa. Enquanto chove lá fora, enquanto para de chover lá fora. E a humidade se agarra às paredes brancas. Com barras às vezes amarelas, outras azuis.♠

Acreditar, do diário “Dos dias do fim”

24 Oct

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Nos últimos dias, os dias revezam-se: Um cinzento e às vezes com chuva; outro luminoso, o sol a baloiçar num céu azul magnífico. Logo no dia seguinte. Ontem aconteceu um dos primeiros, e eu atravessei a vila velha de tantas subidas, a pé, lá para os lados do castelo, logo depois do nevoeiro ter-se recolhido. Ficaram nuvens negras a pairar sobre a fortaleza, àquela hora atravessada de gentes de muitas línguas.

Hoje, celebro um dos segundos com toda a sua glória. A lembrar os dias de primavera. Ainda guiada pela neblina, de manhã saí para a rua de casaquinho que acabei por pôr e tirar à medida da temperatura das ruas que fui cruzando. Apesar de já não ter febre, a gripe persiste numa tosse profunda que se intensifica à noite – como toda a tosse que se preza! –  impedindo-me de maiores horas noturnas de leitura. Há três anos que não tinha uma gripe assim! E, de repente…

Às vezes, é como se o desânimo quisesse instalar-se dentro de mim por uma qualquer porta ou debilidade física, já que de olhos abertos nunca o deixo permanecer na minha vida mais do que um dia. Nesse, é certo, mergulho bem fundo no inferno das minhas ‘desgraças’, permitindo esta fraqueza de sentir-me malfadada. Choro e grito o silêncio dos deuses. Exorcizo as minhas fragilidades.

Mas tenho um velho contrato comigo: não me deixar abater. Recomeçar a esperança sempre. Acreditar. É fácil? É muito difícil! E tenho tantos mecanismos para chegar lá! Aprendo a respirar para me acalmar.  Acalmo-me respirando. E olhando em volta.  Nestas paisagens magnificas campestres, perto de mim e mais além. Umas vezes mergulhadas de luz, outras de chuva ou nevoeiro, acariciadas pelo vento. Fiz o mesmo na cidade.

Hoje vou acalmar-me com a lua cheia, no primeiro dia de lua plena. Quando formos só nós duas na madrugada, e ela subir ao meu telhado para uma cavaqueira amena. E, então, será paz e tranquilidade em mim. Uma sensação sublime, que nem mesmo o sol me consegue dar!♥

Canecas de chá e páginas de livros

21 Oct

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O cuco partiu mesmo com a última andorinha! Mas contínuo a ouvir o canto dos pássaros, por perto. Cantam com tanta alegria que parece estarmos em agosto ou setembro. Cantam nos momentos de sol, uma magnífica bola amarela de luz morna e doce! Pareceu-me ouvi-los nos momentos de chuva copiosa, que criava poças nos ladrilhos do quintal.

Ouvi-os da minha janela, primeiro. Depois escutei-os. Cantavam. Foi assim ao longo dos dois dias. Enquanto eu tecia o fim de semana a ler páginas de livros e jornais. E a bebericar chá de gengibre.

Agora, tenho sol para a despedida do dia, deste domingo calmo. Que maravilha! E a janela aberta até ao primeiro sopro fresco da noite, que logo chega. Agora, o limoeiro diz-me que os pássaros já foram dormir. É o início de uma nova semana, a caminho de Novembro. ♥

O céu da tarde

19 Oct

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E depois de uma longa noite de chuva, o sol apareceu radiante, aquecendo-me o corpo e a alma. Enorme, um enorme sol amarelo. E o céu pintou-se de muitos azuis. E as nuvens seguiram-lhe o jeito, e coloriram- se do cinza ao branco. Criaram relevo e tocaram os montes. Há um novo respirar, por aqui! ❤

Na hora do crepúsculo

18 Oct

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Depois de um dia de chuva miudinha mas constante, o sol fez esta aparição perfeita na despedida: um rio de amarelo intenso, magnífico de cortar a respiração, a tocar os montes, e a esgueirar-se no céu que permaneceu azul chumbo.

É a hora do crepúsculo, cheia de glória e de poesia.  É o dia que se despede numa moldura sublime de outubro e de outono, a anunciar outras horas de beleza da estação da nostalgia e do recolhimento.

É a hora dos vampiros acordarem. Dos lobos. Das bruxas preparem os terreiros para a festa. E de eu fechar a janela, deixando uma pequena brecha: os binóculos que me permitem encontrar a madrugada sempre que quiser. Quando tudo for negro para além dos cadeeiros da rua, e se instalar o silêncio. [Há dois dias que não ouço o cuco cantar! Desconfio que partiu com as andorinhas à procura de outras primaveras]!💚

Enquanto chove

18 Oct

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A chuva ficou toda à noite comigo! Começou suavemente, salpicando o vidro da janela do meu quarto – por essa altura, já o vento agitava os braços do limoeiro que se divertia a fazer desenhos na parede lateral, muito branca, que a um canto funciona como cabeceira de cama – , depois ganhou ritmo, depois perdeu ritmo, animando-se toda a noite neste ritmo sobe e desce. Ouvia-a dançar assim, toda a noite. Perto de mim.

E eu travessei a madrugada assim, animada umas vezes pelo vento suave outras pela chuva suave, outras por uma tosse menos suave que a chuva e que o vento. De qualquer forma, dormi melhor. A febre passou. De qualquer forma, vou continuar ‘sitiada’ aqui em casa, mantendo-me quentinha com chá de gengibre (e mel, e limão, e canela), tentando ler e escrever.

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Já de manhã, à procura de um livro para ler ou reler – porque eu gosto de ler livros uma segunda vez, anos depois da primeira – e de um marcador de página, caiu literalmente aos meus pés um título de Scott Peck, que eu tenho há muito tempo mas não cheguei a ler ou a acabar de ler, já não sei!, “O Caminho Menos Percorrido”. Quanto ao marcador, tem uma frase de Paul Pearsall, sobre a qual eu não tenho nada a comentar: “A Vida é mais simples quando pensamos menos nela”. Ainda não decidi se vou ler o livro! E/ou usar o marcador!

 

A memória das histórias

16 Oct

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Os sábados e domingos têm um gosto especial neste lugar. São de uma agitação boa, trazida pelas memórias deliciosas de um tempo feliz. Sabem a mimos, aos lanches com bolos escuros e leite quentinho com uma colherzinha mínima de café ‘roubado’, quando o frio se anunciava no tempo certo e a mãe cuidava de todas as minhas necessidades.

Sobretudo os sábados sabem a histórias que a mãe inventava quando esgotava as histórias dos livros. Porque eu era ávida! “Mãe, conte-me outra história” pedia sedutora, como só a criança conseguia ser para amolecer corações. E, então, lá ia a mulher de olhos cor do oceano, cheia de paciência e criatividade, engendrar uma história nova.

Viciei-me em histórias muito antes de conseguir lê-las, ouvindo histórias lidas e inventadas. E sem me aperceber, eu própria me fui fazendo contadora de histórias. As da minha mãe traziam-me cenários extraordinários, fadas e princesas. Do feitiço inicial à quebra do feitiço era uma palpitação cardíaca! Sorte a minha que o conflito se resolvia em três tempos.

As minhas são histórias reais, que às vezes imitam as irreais. São histórias de outros. Tantas que eu já escrevi! Às vezes tento ensaiar a minha, em pequenos capítulos de enredo disfarçado. Mas fico por crónicas de palmo e meio.

As histórias do meu pai eram diferentes das histórias da minha mãe. Ele era o contador da sua própria história que me deixava olhos (da cor dos dele) arregalados, muito abertos de espanto e sonho. Aos domingos estou mais com ele, não nas histórias mas na ‘exploração’ da Natureza. Nos passeios por o bairro além rio, reenceno o trilho ao sol com a minha mão pequenina na dele enorme, pronunciando o nome das árvores e dos bichos. Com voz afetada de mimo. Somos só nós os dois. E à nossa volta, os pavões abrem asas.

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