Notas de outono e a minha mãe

14 Sep

rosa - Cópia recortada

Hoje há qualquer coisa no ar. Ainda é muito subtil, mas ‘anda por aí’: uma luz menos intensa, um cheiro de passagem de estação que me faz apetecer ir para a cozinha fazer compota de ameixa, biscoitos e bolinhos de mel.

Tenho rituais para acolher as estações que aprendi com a minha mãe. E tal como ela, os melhores celebram a primavera e o outono.

Juntas, costumávamos fazer passeios pelos campos, quando os dias começavam a crescer. “O Alentejo é mais bonito nesta altura”, dizia-me ela – a madeirense que nunca perdeu as raízes e vivia com saudades do mar.

No outono íamos as duas para a cozinha, onde ela juntava o melhor das duas regiões inventando bolinhos que misturavam mel, café e especiarias. Comecei por lamber a taça onde restava sempre uma generosa porção de massa dourada, como criança que era. Mais tarde fiz todas aquelas receitas.

Não me lembro da primeira vez que ela colocou nas minhas mãos o pequeno bolinho cozido numa forma própria, especialmente para mim. Mas lembro-me da última: eu já tinha 30 anos!

Ah, como eu me sentia uma criança orgulhosa de ter um amor assim para mim. Dos gestos que me diziam “gosto de ti”.

Hoje vou celebrar estas notas de outono, que fizeram com que tu ainda estivesses mais presente, mãe. Vou fazer uma compota de ameixa, onde possa continuar a sentir a acidez do fruto.

E a ti, que  fazias crescer flores entre o xisto, deixo uma rosa.

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