Enquanto anoitece

27 Oct

la fora a chuva

Enquadro. Foco. Os planos repetem-se para além da minha janela, tanto quanto é possível repetirem-se. A vida captada a cores intensas, às vezes revelada a preto e branco.

Ora vejo o sol nascer e esconder-se entre as oliveiras da rotunda, ora a chuva estender-se no alcatrão. Abre-se o céu para ela passar. Como agora, neste anoitecer de fim de outubro. Às vezes, vislumbro arco-íris e acredito que é bom presságio.

No fluir das estações sonho, entristeço, descanso, ganho asas. Por esta ordem, muitas vezes. [Nos últimos dias tenho treinado voos, feito todos os trabalhos de casa]. Anoto pensamentos em cardeninhos pequenos. Faço promessas para anos novos, projetos para os dias compridos. Tenho sonhos de primavera quando os dias encurtam impelidos pela mudança dos relógios, na pressa de materializar desejos de luz. Até hoje. Até este preciso momento em que por momentos só quero parar o tempo. Apesar da chuva.

Não me tirem este outono, este fim de outubro chuvoso que me prende em casa, quando não há necessidade maior de sair para a rua, entre teclas e papéis, livros e canecas de chá que me aquece o coração. Esperem, não quero sair daqui, até à realização do maior desejo. Deixem-me estar. Deixem-me puxar a mantinha até ao queixo, ajeitar-me neste casulo quase tão quente como o ventre da minha mãe. Não me levem este outono molhado e morno. Porque tenho medo do que me espera na primavera.

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