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30 de outubro, do “Diário dos dias do fim”

30 Oct

2018-10-30 13.05.03

Mais um dia e entramos em novembro. A chuva voltou ontem à noite. Ouvia-a pouco depois de me deitar. Caía determinada, abrindo riachos entre a calçada. Alagando o limoeiro. E afogando a salsa no canteiro por baixo da minha janela, no quarto onde não dormia.

Durante o dia tinha havido frio, muito frio, com uma nuvem cinzenta a pairar sobre a vila. Os montes brincavam às escondidas, ao ritmo das nuvens. Era o único alento. Tapa. Destapa. Adivinha o que vem a seguir. Deixei-me ir no jogo, o único que me entretém os dias quando a alma pesa, se afunda, e eu ainda tenho vontade de manter-me à tona numa distração bonita.

Agora, ora chove ora faz sol. Está frio, e ao sol aquece. É outono. E eu que tanto o quis, sinto-me asfixiar neste cenário bucólico, tão longe dos meus afetos. Tão longe dos dias felizes.

Há dias em que faço de conta. Que me integro. Que me adapto. Que sou capaz. Que não estou confusa. Que não tenho inveja (boa) das notícias boas que me chegam de longe. Que não tenho inveja das aventuras que outros ousam. Há outros, em que estou farta de fazer de conta. Não quero fazer de conta. Deixem-me dizer que dói muito.

Acordei com a chuva. Agora há sol. Uma inconstância estirada na manhã que se alonga pela tarde.  Em bicos de pés, bate-me no vidro da janela com diamantes em bruto e raios de luz.  E eu perto dela, dessa janela, confirmo este sentir inquieto que se revolta. Que se queixa. Que se lamenta descendo aos infernos da vitimização. São dias tão pesados! Horas tão duras. De um silêncio sem fim! Mas desse que não traz paz! Mas quem sabe?, talvez amanhã eu possa desenhar palavras com flores e corações! ♥

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Relaxar

26 Oct

2018-10-26 17.50.35Não vejo a hora da hora do aconchego! Fim de tarde, lusco-fusco. Um livro para ler, um copo de vinho (tinto, Bio, produto local) para bebericar. A entrar no fim de semana – e na noite – devagar. Docemente. Engano o desejo de outra coisa. Enquanto chove lá fora, enquanto para de chover lá fora. E a humidade se agarra às paredes brancas. Com barras às vezes amarelas, outras azuis.♠

A memória das histórias

16 Oct

2018-10-11 15.19.39

Os sábados e domingos têm um gosto especial neste lugar. São de uma agitação boa, trazida pelas memórias deliciosas de um tempo feliz. Sabem a mimos, aos lanches com bolos escuros e leite quentinho com uma colherzinha mínima de café ‘roubado’, quando o frio se anunciava no tempo certo e a mãe cuidava de todas as minhas necessidades.

Sobretudo os sábados sabem a histórias que a mãe inventava quando esgotava as histórias dos livros. Porque eu era ávida! “Mãe, conte-me outra história” pedia sedutora, como só a criança conseguia ser para amolecer corações. E, então, lá ia a mulher de olhos cor do oceano, cheia de paciência e criatividade, engendrar uma história nova.

Viciei-me em histórias muito antes de conseguir lê-las, ouvindo histórias lidas e inventadas. E sem me aperceber, eu própria me fui fazendo contadora de histórias. As da minha mãe traziam-me cenários extraordinários, fadas e princesas. Do feitiço inicial à quebra do feitiço era uma palpitação cardíaca! Sorte a minha que o conflito se resolvia em três tempos.

As minhas são histórias reais, que às vezes imitam as irreais. São histórias de outros. Tantas que eu já escrevi! Às vezes tento ensaiar a minha, em pequenos capítulos de enredo disfarçado. Mas fico por crónicas de palmo e meio.

As histórias do meu pai eram diferentes das histórias da minha mãe. Ele era o contador da sua própria história que me deixava olhos (da cor dos dele) arregalados, muito abertos de espanto e sonho. Aos domingos estou mais com ele, não nas histórias mas na ‘exploração’ da Natureza. Nos passeios por o bairro além rio, reenceno o trilho ao sol com a minha mão pequenina na dele enorme, pronunciando o nome das árvores e dos bichos. Com voz afetada de mimo. Somos só nós os dois. E à nossa volta, os pavões abrem asas.

A manhã trouxe nuvens

10 Oct

paisagem de outono

Por aí: paisagem de outono

As previsões meteorológicas para o sul cumpriram-se, ao décimo dia de outubro: não há sol e um manto acinzentado de nuvens envolve a pequena capela no cerro em frente; sinto o ar levemente fresco mal abro a janela do quarto – durante a noite, sentindo a baixa de temperatura, já procurara aconchego na mantinha cor de rosa que às vezes fica só pelos joelhos. cobriu-me toda desta vez!.

No quintal, o vento desliza no limoeiro e nos ramos da erva-luísa libertando à vez um cheiro adocicado e a limões verdes. No estendal, a roupa estendida ao anoitecer balança-se pesada, concentrando toda a água – a que trazia ao sair da máquina e a da humidade da noite. As folhas recortadas da salsa ainda guardam as bolinhas de orvalho muito redondas que, fazendo desenhos frágeis, lembram os naperons de renda que costumavam tapar as bocas das bilhas de água nas casas de taipa.

Eis o tempo desejado. Para descansar dos dias de calor, e tão difíceis longe do meu Oceano. Eis o tempo de recolhimento que sonhei. E, no entanto, sinto-me estranhamente a  deslizar outono adentro por um corredor melancólico, silencioso para além do vento – quando à minha volta tudo é beleza: as cores terra, verdes e fogo intensificam-se nas árvores e nos arbustos e no céu há uma promessa de chuva.

8 de outubro, do diário ‘Dos dias do fim’

9 Oct

Exposição Pós Pop

Ainda de Lisboa, da Exposição Pós-Pop

O passar dos dias traz-me menos ar para respirar. A estrada estreita-se. As horas seguintes não trazem novidades.  Não chegam notícias, nem de longe nem de perto, que me aqueçam a alma. Agucem a mente. Estimulem o corpo.

Tenho saudades dos artigos que ficaram por fazer. Das aulas por dar. Da minha cozinha virada para o sol logo nas primeiras horas da manhã, e eu ao balcão a comer papas de aveia hora e meia antes de ir para o ginásio. Ou de apanhar o metro para o Cais do Sodré, e depois seguir para Alcântara.

Tenho saudades de Lisboa assombrada pela poluição. Do rio para os lados da Ribeira das Naus. Do cheiro da cidade para os lados da Mouraria (de beber um copo de rosé com a Tânia, ao fim da tarde). E da minha Carnide ao sol e à chuva (este amor que nunca vai morrer!).

Tenho saudades da Vera (companheira das exposições na Gulbenkian, dos gelados na Gulbenkian, dos chás na Gulbenkian, das conversas sobre exposições, cinema e livros), tenho saudades da Tânia, e da Mariza, e da Pilar – das idas ao cinema com elas, à praia, às compras. Tenho saudades dos amigos que de repente ficaram longe (em geografia). Da malta do ginásio. De mim. Tenho saudades de mim!

Procuro sentidos

25 Sep

noite com lua cheia

Ainda confusa com tudo à minha volta. As dificuldades de (re)adaptação. A tudo. A todos. Ao calor.  À aridez.  A mim aqui, que tem de ser diferente – e já é – de mim lá. No lugar onde fui feliz, mesmo nos dias em que o não fui!  Ainda confusa. Dividida entre vontades. O coração e a cabeça.

A dor maior já passou. Agora o pesar ondula como os montes no fio do horizonte, para lá do rio. Umas vezes, uma nova vida feliz parece possível. Outras vezes vai-se tudo, tudo é escuridão. E lá vou eu outra vez, vezes sem conta, a subir e a descer este carrossel de esperança/desesperança.

Tento criar-me. E criar a partir deste caos. Recuperar a criatividade perdida. Mas até ela deixou de responder à minha voz, às vezes! Outra, é verdade, quase damos as mãos. Mas ainda não chegámos lá. Ainda não recuperámos aquele intimismo antigo, de olho no olho, que dava vida às palavras.

E neste ondular vou procurando sentidos. O sentido da minha vida agora, neste lugar. E enquanto não o encontro, vou encontrando momentos de equilíbrio. Vou respirando e alcançando paz nos fins de tarde, nos crepúsculos magníficos, no céu cheio de estrelas e nas fases da lua. Ontem à noite, sobre o meu telhado, descobri Saturno em Sagitário. Horas antes, à saída do ginásio – na noite de princípio de outono que já tinha caído –, testemunhei o nascer da lua cheia, a lua fabulosa da fotografia.

Da falta de inspiração

16 Sep

limoeiro

Agora falta-me a inspiração! Vivemos apartadas há longos meses, apesar da dor. Foi-se dissolvendo nela, a inspiração na dor, num movimento contrário do natural – há quem se sinta mais inspirado em sofrimento, e eu já tive fases dessas.

Sentia-a fugir um dia atrás do outro, tudo começou há muitos meses. Ao princípio eram momentos espaçados no tempo, um subir e descer de montanha, lentamente nos dois sentidos. Depois foi vertigem. E deixei-me arrastar sem inspiração, da escrita à cozinha.

Com cálculos puramente matemáticos, tecendo os dias. Racionalizei tudo. Não fiz o que quer que fosse para impedir esse curso de objetividade. E numa daquelas voltas na vida que eu não quis, fiquei amputada de asas que criam castelos.

E agora falta-me a inspiração!

Falta-me a inspiração, mas estou noutro estágio (do luto): algures entre a negociação (concentro-me em eventuais ganhos?!) e a prostração (falta-me esperança e tenho medo), num lugar frio e ventoso, incerto e devorador, no entanto, ao mesmo tempo, cheio de possibilidades criativas.

Afinal, também há dias assim. Dias em que eu sou capaz de acreditar.

Viagem pela Mouraria

19 Mar

À boleia do 9º aniversário da Associação Renovar a Mouraria, desci ao coração de Lisboa. Fui festejar com os amigos residentes na zona. Atravessávamos sábado e havia sol, uma tarde calma Continue reading

3 Momentos do dia

17 Mar

Uma manhã novinha à minha espera

Primeira paragem: ginásio

Sexta-feira, dia 17 de março: a caminho do fim da semana, a caminho da segunda quinzena do mês. Continue reading

Março em Mértola

13 Mar

Mértola mágica percorre agora os caminhos da primavera no canto dos pássaros e no cheiro das flores. Continue reading

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