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Bom filme ao fim da tarde

30 May

Ladrao Bicicletas

Há semanas que andava com vontade de ver este filme: Ladri di Biciclette (Ladrões de Bicicletas), de Vittorio De Sica. Foi ontem à tarde, em casa, que concretizei o meu desejo. Num dos meus cantinhos preferidos, com o computador aos pés. Sim, vi-o no yotube. Uma versão bem velhinha (e também por isso as fotos ao ecrã estão péssimas) mas valeu a pena. Muito bom este drama passado em Roma do pós-guerra acossada pelo desemprego, que tem como protagonista Antonio Ricci, o homem que passa praticamente todo o filme à procura de uma bicicleta. Primeiro porque arranja um emprego onde lhe é exigido que tenha uma, e a sua está penhorada. E depois porque no primeiro dia de trabalho roubam-lhe a bicicleta entretanto levantada da casa de penhora.

LB

Com excelente fotografia, tem vários pontos altos esta longa-metragem considerada um exemplo do neorrealismo italiano. Por exemplo, a cena em que Maria, a mulher de António, arranca os lençóis da cama e os lava para depois ir penhorá-los, e com esse dinheiro levantar a bicicleta para que o marido possa aceitar o trabalho. Apesar da mágoa, está decidida a mais este sacrifício. A ideia de trocar um produto pelo outro foi dela, perante a vacilação do marido que não sabe o que fazer. De Sica parece querer chamar a atenção para o papel das mulheres em momentos cruciais?! Outro dos grandes momentos fílmicos acontece na casa de penhora quando a câmara acompanha a subida do empregado por uma escada, com mais uma trouxa de roupa nas mãos que deposita na última prateleira, junto ao teto. Uma panorâmica do enorme armazém revela-nos pilhas de roupa que parecem não ter fim, mostrando-nos a história de centenas de famílias romanas obrigadas a penhorar os seus lençóis. E, por fim, a própria caminhada inglória de António, com o filho, pelas ruas da cidade italiana. À procura da bicicleta roubada, com as emoções à flor da pele. O desespero agudizando-se a cada minuto, levando-o ao impensável! Vale a pena ver. Ou rever.

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História com conteúdo

27 Apr

O atentado

cinema

Fui ver “O Atentado” , um filme  realizado pelo libanês  Ziad Doueiri que tem como cenário o conflito israelo-palestiniano (um dos que tinham sido recetemente exibidos em Lisboa, na II Mostra de Cinema e Cultura Judaica). Muito boa esta  adaptação do bestseller de Yasmina Khadra que nos traz a história de um cirurgião israelo-palestiniano premiado e integrado na sociedade de Telavive, cuja mulher detona uma bomba num ataque suicida causando a morte de várias pessoas e o ferimento de outras tantas (que o próprio  cirurgião assiste no hospital). Totalmente alheio do envolvimento de Sihem, Jaafari primeiro não acredita nessa possibilidade. A confirmação chega-lhe numa carta que ela própria lhe deixara escrita. Incrédulo e devastado,  Jaafari regressa aos territórios palestinianos ocupados à procura de respostas. Merece ser visto este filme  que nos faz pensar – deixando-nos também a sensação de que o fim do conflito ainda está longe. E questionar – questionar sobre se, relamente há solução para tanto ódio, em igual proporção de um e de outro lado.

 

Cinema de madrugada

21 Apr

Lost in Translation

Estava mesmo a precisar de um fim de semana assim: com mais um dia de bónus. Bendita Páscoa! Para pôr a vida em dia. As gavetas e a papelada. Ler. Ouvir música. Ver filmes. Preguiçar. Não fazer nada. Fazer uma nova lista de objetivos. Atualizar a lista de gratidão. Consegui fazer quase tudo. Consegui fazer o essencial. Para o próximo fim de semana, com mais um dia de bónus para celebrarmos a liberdade, vou acrescentar as minhas listas, ler mais umas páginas dos dois livros que estou a ler, e quem sabe ver mais um filme?! Esta madrugada vi Lost in Translation, uma narrativa entre a comédia e o drama realizada por Sofia Coppola. E simplesmente adorei este regresso ao Japão. E à história de uma jovem e um homem de meia-idade, ambos norte-americanos e insatisfeitos com as suas vidas, que se cruzam em Tóquio. Charlotte e Bob tornam-se cúmplice, amigos, à medida que vão explorando a gigantesca cidade japonesa, com uma cultura muito própria. Mas será apenas amizade o que os une? O filme deixa na ambiguidade o sentimento que realmente liga os dois personagens. Adoro rever filmes anos depois!

O melhor de sábado

5 Apr

Rapariga com brinco de pérola

Senti-me tentada a ficar na cama e dormir mais um pouco. Talvez mesmo dormir tudo o que precisasse. Tive esse impulso, confesso. Talvez um segundo antes de o despertador tocar. Às oito da manhã. Mas fui ao ginásio. E fiquei por lá quase três horas (fiz o meu treino e depois uma aula de Pilates).
Tentada a sair de casa, acabei por ficar – passei o dia a contrariar o primeiro impulso! Gosto de preguiçar aos sábados, aninhada nos meus cantinhos preferidos. E ver ‘cinema’ enrolada em mantinhas, a bebericar chá de gengibre. E a comer aipo. Hoje escolhi o filme Rapariga com Brinco de Pérola. Já o vi tantas vezes, mas em muitos aspetos é como se o visse pela primeira vez. Sábado perfeito.

Voltei à sala de cinema

20 Feb

Her

Quando há semanas li a crítica no Guardian, prometi ir ver Her (em português, Uma História de Amor) logo que chegasse às salas de cinema. Aliás, cheguei a programar vê-lo durante a Semana Óscares Metroplis já que constava da lista de pré-estreias, (na altura vi Um Quente Agosto, de que vos falei aqui), mas à última hora não concretizei o meu plano. Finalmente, ontem fui ver o novo filme de Spike Jonze, que mais uma vez nos traz o tema da solidão contemporânea (já o havia feito em os Inadaptados, de 2002, por exemplo).

Em Los Angeles num futuro próximo um escritor de cartas solitário (papel interpretado pelo ator por Joaquim Phoenix) apaixona-se pela voz do seu novo sistema operativo (a voz de Scarlett Johansson). Mas Theodore Twombly não está sozinho. Outros homens e outras mulheres estão nesse preciso momento a passar por relações idênticas. O que se passa com a humanidade? Terá ela perdido a capacidade de lidar com emoções reais? Cómico ou depressivo? Cabe a cada um decidir. Dá que pensar! Vale a pena ver! Eu adorei!

Cinema à quarta (para uma pré-estreia)

30 Jan

Finalmente, voltei às salas de cinema (ontem às 21h 30). Depois de um mês e meio de ausência. E aproveitando a Semana Óscares Metropolis (UCI Cinemas do El Corte Inglés) optei por uma pré-estreia. Indecisa ao princípio com o que havia de escolher, decidi-me por Um Quente Agosto. Porque me apetecia ver qualquer coisa leve e ao mesmo tempo inteligente. Porque nunca perco Meryl Streep. E porque gosto de Julia Roberts. Adorei! Absolutamente fabuloso este filme de 130 minutos, adaptado de uma peça com o mesmo nome (August Osage Country), que conta a história de uma família, ou melhor, das mulheres que a constituem. Uma harmonia entre o dito (diálogos) e o não dito (mas comunicado nas expressões dos personagens) e o desempenho dos atores que fazem deste filme um dos melhores, brevemente em cartaz. Estreia a 27 de fevereiro (Meryl Streep merece o Óscar, seguramente!)

Tempo de ficção!

6 Jan

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Vi-o pela primeira vez na televisão. Anos depois de ter estado nas salas de cinema (1982). Um dos meus filmes favoritos já merecia ser visto em ecrã gigante. Mas como não tenho acesso a esse ‘luxo’, continuo a passa-lo no meu pequeno ecrã. Sem nunca retirar-lhe beleza. Da história. Dos planos. E da música de Vangelis.

Passei-o mais uma vez este domingo. Uma visão negra e futurista de Los Angeles, em novembro de 2019. Com a mesma emoção de sempre. Emociono-me permanentemente a ver Blade Runner, de Ridley Scott., baseado no romance Do androids dream of electric sheep? (Os androides sonham com ovelhas elétricas?). E é todo a enredo à volta dos androides que mais me fascina, colocando-nos invariavelmente perante as nossas próprias emoções, desejos e medos (como o medo da morte).

O que é o romance de um polícia, Deckland (Harrison Ford) – cujas visões repetidas de um unicórnio sugerem que também ele possa ser um humanoide – pela bela Rachael (outra androide de uma geração mais avançada), comparado com as angústias de um androide que deseja ser humano?

Roy, o androide líder, é a força. A consciência. O bem e o mal. Só podia ser defendido pelo ator Rutger Hauer, o tipo bonito atlético, o cínico inteligente. Grandes planos finais. E a célebre frase de Roy, que tudo resume: “I’ve seen things you people wouldn’t believe. Attack ships on fire off the shoulder of Orion. I watched C beams glitter in the dark near the Tannhauser gate. All those moments will be lost in time, like tear in the rain. Time to die (Eu vi coisas que vocês nunca acreditariam. Naves de guerra em chamas na constelação de Orion. Vi raios C resplandecerem no escuro perto do Portal de Tannhauser. Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva. Tempo de morrer). Há filmes que são para sempre! Para mim, este é um deles.

As horas (de um fim de semana)

11 Nov

A tarde

‘Ainda tenho muitas horas deste fim de semana à minha frente’. Dou-me conta disso perto do meio-dia, de um domingo de duas caras – acordei sob nuvens cinzentas, e àquela hora o sol aquece-me a ponta dos dedos. Que novembro generoso!

Espreguiço-me (ou alongo-me?) e revejo as horas do fim de semana, para trás. A noção de tempo provoca-me, apesar de viver cada vez mais o presente. E às vezes assusta-me, semeando-me borboletas no estômago. E vivo assim, entre forças, à procura do equilíbrio.

Encontro-o nas horas passadas em conversa comigo, nas horas que passo com os amigos e com a família, nas horas passadas a tecer projetos e a fazer coisas que me dão prazer.

As horas do segundo fim de semana de novembro começaram na sexta-feira ao fim da tarde, à volta do pequeno prazer de preparar uma refeição saudável para receber uma amiga para o jantar. Celebra-se a amizade, entre assuntos.

E horas depois estamos no espetáculo de Aimee Mann na Aula Magna (em Lisboa). Ligeiramente fora da hora! Quem me conhece sabe que só posso gostar das canções da cantora (guitarrista, baixista e compositora) norte-americana: perfeitas e um pouco sombrias

Aula Magna

A jovialidade de Aimee, que já atingiu metade de século, é extraordinária. E a prova de que é possível ‘parar’ o tempo, e por uma escassa hora ludibriar os ponteiros.

No regresso a casa, embora tarde adormeço a horas. E sem despertador programado, pois decido não ir ao ginásio no dia seguinte, acordo no sábado fora da minha hora.

Deixo o tempo  correr sem pressas, e a meio da tarde sou inspirada por duas horas a não fazer nada: ver um vídeo em casa,  um programa que vinha adiando há algumas semanas. Com  direito a um bom tinto alentejano (também tenho as minhas horas de puro regionalismo!)

E às seis horas, quando as sombras da noite já tinham-se apoderado do meu lugar no sofá, sentei-me indiferente ao colo delas a ver As Horas (The Hours).

Horas

Não me lembrava da história das Horas, o que é estranho pois é muito boa. Já o romance de Virginia Woolf, Mrs Dalloway, que aqui ‘liga’ três mulheres em diferentes tempos históricos, sei-o ao pormenor. Se calhar porque é uma das minhas obras escolhidas!

De plano em plano, o filme percorre passado e presente. Em 1923, Virginia Woolf recupera de um esgotamento nervoso e começa a escrever o romance Mrs Dalloway. Em 1951, o livro da escritora britânica exerce um papel decisivo na vida de uma dona de casa americana que pensa suicidar-se. E em 2001, na de uma editora de Nova Iorque que cuida de um escritor.

Ele está a morrer e provoca-a  continuamente: “ah Mrs Dalloway, eternamente dando festas para disfarçar o silêncio”, diz-lhe a certa altura. E nós descobrimos que também já fizemos banquetes para fugir das nossas sombras.

Adorei os diálogos e os silêncios, o dito e o insinuado sobre a vida e a morte, a liberdade e a repressão. E o final que me surpreendeu – totalmente inesperado – neste fim de semana de princípio de novembro. Em que me senti atraída e acossada pelas horas!

No cinema às três.

9 Oct

Eu e Tu sala recortada

Meia hora para comprar o bilhete e os Halls sem açúcar, dar um pulo à livraria Bertrand, e entrar na sala 1 do Monumental sete minutos antes de o filme começar – às três e trinta. Gosto de fazer as coisas com tempo.

E ainda bem! Pois tive de mudar de lugar, à última da hora. Não entendo a mania de algumas pessoas, de sentarem-se ao colo dos outros. Com cerca de vinte na sala, francamente, não havia necessidade!

Isto tudo em nome de Bertolucci. E do seu mais recente filme Eu e Tu. Um ano depois de ter ido a Cannes, chega a Portugal.

A espectativa é grande tratando-se de Bernardo Bertolucci, realizador de filmes como Último Tango em Paris (1972) e O Último Imperador (1987). E ainda mais quando se ausentou uma década – a última realização era de 2003, Os Sonhadores.

Não é extraordinário este drama de Bertolucci sobre um adolescente na idade do armário, introvertido e antissocial. Mas é bom, vê-se muito bem. Gostei da fotografia e da música (com espaço para um tema de David Bowie), e da ideia de um só cenário para filmar os dilemas juvenis (o que não é uma novidade no realizador italiano).

Eu e Tu 1 recortado

Mas voltando à história, Lorenzo é um jovem que tenta manter-se longe do mundo e perto das coisas que gosta: ler e ouvir música. O seu maior sonho é viver só, mas na impossibilidade de o fazer, experimenta a sensação isolando-se na cave do seu prédio durante uma semana.

Os pais estão convencidos que foi numa viagem de turma, para uma estância de esqui. E felizes com o que interpretam ser um pequeno sinal da sua abertura.

No primeiro dia, tudo acontece como Lorenzo havia sonhado. Mas depois tudo muda, com a chega da sua meia-irmã, com praticament o dobro da idade dele, que escolhe o mesmo lugar para fazer uma desintoxicação da droga (heroína).

E eles, que nunca tinham convivido, acabam por se entender, por se entreajudar, ajudando-se a curar as feridas um do outro. Conhecer Olívia vai alterar para sempre a maneira de Lorenzo ver a vida, superando a aversão ao contacto humano e ao convívio. Ou, pelo menos, é essa a ideia  que fica!

O que fazer num dia de chuva?

2 Oct

Nina Simone recortada

Neste tempo húmido, chuvoso e cinzento, corro o risco de ‘hibernar’ no lugar preferido da minha casa, rodeada das coisas que eu gosto e gosto de fazer: ler um livro, ouvir música, ver um filme.

No sábado permiti-me esses prazeres, entre os três episódios gravados de Crossing Lines, a mais recente série do AXN, e o jazz.

Ouvi Billie Holiday, e redescobri o tema  Getting Some Fun Out of Life. Escutei mais do que uma vez todo o reportório de Nina Simone, porque é maior a nossa intimidade, e encontrei novos sentidos em Little Girl Blue.

Não fossem compromissos inadiáveis e ter combinado uma ida ao cinema com uma amiga, e teria continuado domingo ao mesmo ritmo. Naquele balanço ameno, onde a única nota forte era o jazz.

Sai indecisa. Atravessei a Av. de Roma a evitar as poças de água, e a julgar que não tinha sido uma boa ideia ter saído de casa.

A noiva recortada

Mas quando me sentei na penúltima fila da sala 2 do King, a ver os primeiros segundos de A Noiva Prometida, esqueci tudo. E não tive dúvidas que tínhamos escolhido um bom filme.

Gostei de tudo. Da fotografia, que é envolvente, dos planos de filmagem, da banda sonora e da história: um retrato intimista de uma família de judeus ultraortodoxos de Telavive.

A noiva é uma jovem de 18 anos, prometida a um homem de boas famílias e com um futuro auspicioso pela frente, que tem a sorte de se apaixonar por ele no primeiro momento.

Mas que vê a possibilidade de se casar desfeita quando a irmã mais velha, Esther, morre de parto.

Com receio que o genro parta para a Bélgica (onde lhe arranjaram uma possível mulher) levando o bebé, a mãe das duas propõe que a filha se case com o cunhado.

Shira recusa entregar-se a Yochai, primeiro. Depois, uma atração súbita por ele lança-a num enorme sofrimento, enreda-a numa teia de sentimentos de culpa.

Dividida entre o amor à irmã morta e o desejo por Yochai, Shira acaba por ceder ao segundo, e aceitar o seu ‘destino’. Absolutamente fabuloso!

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