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Felicidade é isso

16 Nov

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Felicidade é isso, qualquer coisa linda cá dentro. Que se ilumina. Bem no lugar dos afetos. Onde bomba mais forte o sangue que dá vida. É um momento mágico. Um respirar depurado e cristalino. Um lugar de conforto, que acontece. Uma lareira de outono com brasas quentinhas sempre inflamadas. A crepitar de alegria.

Felicidade é isso: um momento, umas horas, um dia inteiro desde o primeiro raio ao crepúsculo que se ilumina. Que nos ilumina. E nós iluminamo-nos. E nós somos capazes de qualquer coisa, à luz iluminada dessa força criadora.  Somos pássaro por momentos, por um dia inteiro do nascer ao pôr-do-sol. Somos harpa com vida própria, que não se cansa de tocar. Somos flauta. Somos poesia.

Quando a sinto chegar preparo um banquete para recebê-la. Somos velhas amigas. Ainda que passemos muito tempo sem nos encontrar. Ou sequer avistar. Mas existe entre nós um elo genuíno. Um laço que se encadeia e volta a encadear. Como se fosse a primeira vez. Como se fosse a milésima vez. Com uma enorme graça. E harmonia. Felicidade é isso. É não sei o quê bom, que nos apazigua e incendeia.♥

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Acreditar, do diário “Dos dias do fim”

24 Oct

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Nos últimos dias, os dias revezam-se: Um cinzento e às vezes com chuva; outro luminoso, o sol a baloiçar num céu azul magnífico. Logo no dia seguinte. Ontem aconteceu um dos primeiros, e eu atravessei a vila velha de tantas subidas, a pé, lá para os lados do castelo, logo depois do nevoeiro ter-se recolhido. Ficaram nuvens negras a pairar sobre a fortaleza, àquela hora atravessada de gentes de muitas línguas.

Hoje, celebro um dos segundos com toda a sua glória. A lembrar os dias de primavera. Ainda guiada pela neblina, de manhã saí para a rua de casaquinho que acabei por pôr e tirar à medida da temperatura das ruas que fui cruzando. Apesar de já não ter febre, a gripe persiste numa tosse profunda que se intensifica à noite – como toda a tosse que se preza! –  impedindo-me de maiores horas noturnas de leitura. Há três anos que não tinha uma gripe assim! E, de repente…

Às vezes, é como se o desânimo quisesse instalar-se dentro de mim por uma qualquer porta ou debilidade física, já que de olhos abertos nunca o deixo permanecer na minha vida mais do que um dia. Nesse, é certo, mergulho bem fundo no inferno das minhas ‘desgraças’, permitindo esta fraqueza de sentir-me malfadada. Choro e grito o silêncio dos deuses. Exorcizo as minhas fragilidades.

Mas tenho um velho contrato comigo: não me deixar abater. Recomeçar a esperança sempre. Acreditar. É fácil? É muito difícil! E tenho tantos mecanismos para chegar lá! Aprendo a respirar para me acalmar.  Acalmo-me respirando. E olhando em volta.  Nestas paisagens magnificas campestres, perto de mim e mais além. Umas vezes mergulhadas de luz, outras de chuva ou nevoeiro, acariciadas pelo vento. Fiz o mesmo na cidade.

Hoje vou acalmar-me com a lua cheia, no primeiro dia de lua plena. Quando formos só nós duas na madrugada, e ela subir ao meu telhado para uma cavaqueira amena. E, então, será paz e tranquilidade em mim. Uma sensação sublime, que nem mesmo o sol me consegue dar!♥

A memória das histórias

16 Oct

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Os sábados e domingos têm um gosto especial neste lugar. São de uma agitação boa, trazida pelas memórias deliciosas de um tempo feliz. Sabem a mimos, aos lanches com bolos escuros e leite quentinho com uma colherzinha mínima de café ‘roubado’, quando o frio se anunciava no tempo certo e a mãe cuidava de todas as minhas necessidades.

Sobretudo os sábados sabem a histórias que a mãe inventava quando esgotava as histórias dos livros. Porque eu era ávida! “Mãe, conte-me outra história” pedia sedutora, como só a criança conseguia ser para amolecer corações. E, então, lá ia a mulher de olhos cor do oceano, cheia de paciência e criatividade, engendrar uma história nova.

Viciei-me em histórias muito antes de conseguir lê-las, ouvindo histórias lidas e inventadas. E sem me aperceber, eu própria me fui fazendo contadora de histórias. As da minha mãe traziam-me cenários extraordinários, fadas e princesas. Do feitiço inicial à quebra do feitiço era uma palpitação cardíaca! Sorte a minha que o conflito se resolvia em três tempos.

As minhas são histórias reais, que às vezes imitam as irreais. São histórias de outros. Tantas que eu já escrevi! Às vezes tento ensaiar a minha, em pequenos capítulos de enredo disfarçado. Mas fico por crónicas de palmo e meio.

As histórias do meu pai eram diferentes das histórias da minha mãe. Ele era o contador da sua própria história que me deixava olhos (da cor dos dele) arregalados, muito abertos de espanto e sonho. Aos domingos estou mais com ele, não nas histórias mas na ‘exploração’ da Natureza. Nos passeios por o bairro além rio, reenceno o trilho ao sol com a minha mão pequenina na dele enorme, pronunciando o nome das árvores e dos bichos. Com voz afetada de mimo. Somos só nós os dois. E à nossa volta, os pavões abrem asas.

A manhã trouxe nuvens

10 Oct

paisagem de outono

Por aí: paisagem de outono

As previsões meteorológicas para o sul cumpriram-se, ao décimo dia de outubro: não há sol e um manto acinzentado de nuvens envolve a pequena capela no cerro em frente; sinto o ar levemente fresco mal abro a janela do quarto – durante a noite, sentindo a baixa de temperatura, já procurara aconchego na mantinha cor de rosa que às vezes fica só pelos joelhos. cobriu-me toda desta vez!.

No quintal, o vento desliza no limoeiro e nos ramos da erva-luísa libertando à vez um cheiro adocicado e a limões verdes. No estendal, a roupa estendida ao anoitecer balança-se pesada, concentrando toda a água – a que trazia ao sair da máquina e a da humidade da noite. As folhas recortadas da salsa ainda guardam as bolinhas de orvalho muito redondas que, fazendo desenhos frágeis, lembram os naperons de renda que costumavam tapar as bocas das bilhas de água nas casas de taipa.

Eis o tempo desejado. Para descansar dos dias de calor, e tão difíceis longe do meu Oceano. Eis o tempo de recolhimento que sonhei. E, no entanto, sinto-me estranhamente a  deslizar outono adentro por um corredor melancólico, silencioso para além do vento – quando à minha volta tudo é beleza: as cores terra, verdes e fogo intensificam-se nas árvores e nos arbustos e no céu há uma promessa de chuva.

Primeira semana de outubro

7 Oct

atravessar a floresta

Sétimo dia de outubro. Sete dias de um novo mês. As manhãs refrescaram. As madrugadas convidam-me a fechar a janela e aconchegar o lençol ao queixo. Um friozinho atrevido entra no meu quarto adentro. Arrebatador, marcando presença. Impetuoso, temperamental.

As noites refrescaram. Cada dia mais cedo, mal nasce a lua. Segunda, terça, quarta-feira… é outubro a entrar por a minha vida adentro. E a mudar a paisagem lá fora: as folhas da parreira ficaram cor de fogo; de manhã, a salsa ainda concentra a presença do orvalho noturno.

Mas entre uma coisa e outra, os dias são quentes. Ainda. Dias cheios de preguiça ao sol, espreguiçando-se com braços invisíveis no muro branco de cal, no quintal da casa. E a uma distância confortável da janela do meu quarto, um cuco continua a cantar até o entardecer.

Distrai-me o seu canto repetitivo. Enlouquece-me o seu canto repetitivo. Tantas vezes dou por mim perdida! Incapaz de traduzir a linguagem deste lugar.

E caminho assim, a este ritmo cheio de contrastes. De amanhã à procura da tarde, neste labirinto de sinais e emoções, na esperança de um outono cheio de surpresas boas. E se elas não vierem, ao menos terei a chuva e as trovoadas para me entreter e inspirar. E, com um pouco de sorte, talvez até possa ser mais criativa! E, então, valerá a pena todas as tempestades.

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