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Ler sempre que posso

11 Aug

Caros Safon (A sombra do Veto e Luzes de Setembro)

Não faço promessas de ler um livro por mês, cinco páginas por dia no mínimo. Gosto de ler. Com o maior prazer passaria os dias com romances e biografias, ensaios e livros de viagens. Se vivesse noutra época, tinha profissão garantida: leria romances para as senhoras da alta sociedade. E se tudo fosse como consta nos livros – e nos filmes –, provavelmente a estas horas estava numa Côte D’Azur com vista sobre o mar turquesa. [Fecho os olhos e consigo imaginar-me lá. E de tanto imaginar sinto o cheiro característico dessas paragens que visitei duas vezes] Assim estou aqui, catorze anos do seculo XXI, num agosto com manhãs de setembro. Há oito dias comprei estas duas obras de Carlos Záfon (na foto). É verdade, ainda não tinha lido nada no escritor espanhol. Já terminei As Luzes de Setembro, um mistério muito bem construído, uma história intensa, fantástica, que me lembra outras histórias lidas nos meus tempos infanto-juvenis. [E voltar a esses tempos por umas horas é sempre delicioso!]. Mas entretanto, com menos tempo para ler, ainda não consegui passar da página quarenta e dois de A sombra do vento. Não vou conseguir lê-lo com a mesma rapidez com que li o outro, pois vou estar mais ocupada nestes tempos de férias para a maioria dos portugueses. E nos momentos livres quero dedicar-me também a outros prazeres: passear por aí, desvendando novos lugares da cidade, ir até à praia, ir ao cinema. A prepósito, ontem fui ver o filme Ida, de Pawel Pawlikowski. Não vou contar a história, também não vou dizer que me marcou particularmente. O que me prendeu realmente, o que eu gostei muito, e nisso o filme polaco a preto e branco é especial, foi da imagem, da fotografia. Para mim, esse é o verdadeiro ‘golpe de asa’!

 

Tempo de ficção!

6 Jan

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Vi-o pela primeira vez na televisão. Anos depois de ter estado nas salas de cinema (1982). Um dos meus filmes favoritos já merecia ser visto em ecrã gigante. Mas como não tenho acesso a esse ‘luxo’, continuo a passa-lo no meu pequeno ecrã. Sem nunca retirar-lhe beleza. Da história. Dos planos. E da música de Vangelis.

Passei-o mais uma vez este domingo. Uma visão negra e futurista de Los Angeles, em novembro de 2019. Com a mesma emoção de sempre. Emociono-me permanentemente a ver Blade Runner, de Ridley Scott., baseado no romance Do androids dream of electric sheep? (Os androides sonham com ovelhas elétricas?). E é todo a enredo à volta dos androides que mais me fascina, colocando-nos invariavelmente perante as nossas próprias emoções, desejos e medos (como o medo da morte).

O que é o romance de um polícia, Deckland (Harrison Ford) – cujas visões repetidas de um unicórnio sugerem que também ele possa ser um humanoide – pela bela Rachael (outra androide de uma geração mais avançada), comparado com as angústias de um androide que deseja ser humano?

Roy, o androide líder, é a força. A consciência. O bem e o mal. Só podia ser defendido pelo ator Rutger Hauer, o tipo bonito atlético, o cínico inteligente. Grandes planos finais. E a célebre frase de Roy, que tudo resume: “I’ve seen things you people wouldn’t believe. Attack ships on fire off the shoulder of Orion. I watched C beams glitter in the dark near the Tannhauser gate. All those moments will be lost in time, like tear in the rain. Time to die (Eu vi coisas que vocês nunca acreditariam. Naves de guerra em chamas na constelação de Orion. Vi raios C resplandecerem no escuro perto do Portal de Tannhauser. Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva. Tempo de morrer). Há filmes que são para sempre! Para mim, este é um deles.

As horas (de um fim de semana)

11 Nov

A tarde

‘Ainda tenho muitas horas deste fim de semana à minha frente’. Dou-me conta disso perto do meio-dia, de um domingo de duas caras – acordei sob nuvens cinzentas, e àquela hora o sol aquece-me a ponta dos dedos. Que novembro generoso!

Espreguiço-me (ou alongo-me?) e revejo as horas do fim de semana, para trás. A noção de tempo provoca-me, apesar de viver cada vez mais o presente. E às vezes assusta-me, semeando-me borboletas no estômago. E vivo assim, entre forças, à procura do equilíbrio.

Encontro-o nas horas passadas em conversa comigo, nas horas que passo com os amigos e com a família, nas horas passadas a tecer projetos e a fazer coisas que me dão prazer.

As horas do segundo fim de semana de novembro começaram na sexta-feira ao fim da tarde, à volta do pequeno prazer de preparar uma refeição saudável para receber uma amiga para o jantar. Celebra-se a amizade, entre assuntos.

E horas depois estamos no espetáculo de Aimee Mann na Aula Magna (em Lisboa). Ligeiramente fora da hora! Quem me conhece sabe que só posso gostar das canções da cantora (guitarrista, baixista e compositora) norte-americana: perfeitas e um pouco sombrias

Aula Magna

A jovialidade de Aimee, que já atingiu metade de século, é extraordinária. E a prova de que é possível ‘parar’ o tempo, e por uma escassa hora ludibriar os ponteiros.

No regresso a casa, embora tarde adormeço a horas. E sem despertador programado, pois decido não ir ao ginásio no dia seguinte, acordo no sábado fora da minha hora.

Deixo o tempo  correr sem pressas, e a meio da tarde sou inspirada por duas horas a não fazer nada: ver um vídeo em casa,  um programa que vinha adiando há algumas semanas. Com  direito a um bom tinto alentejano (também tenho as minhas horas de puro regionalismo!)

E às seis horas, quando as sombras da noite já tinham-se apoderado do meu lugar no sofá, sentei-me indiferente ao colo delas a ver As Horas (The Hours).

Horas

Não me lembrava da história das Horas, o que é estranho pois é muito boa. Já o romance de Virginia Woolf, Mrs Dalloway, que aqui ‘liga’ três mulheres em diferentes tempos históricos, sei-o ao pormenor. Se calhar porque é uma das minhas obras escolhidas!

De plano em plano, o filme percorre passado e presente. Em 1923, Virginia Woolf recupera de um esgotamento nervoso e começa a escrever o romance Mrs Dalloway. Em 1951, o livro da escritora britânica exerce um papel decisivo na vida de uma dona de casa americana que pensa suicidar-se. E em 2001, na de uma editora de Nova Iorque que cuida de um escritor.

Ele está a morrer e provoca-a  continuamente: “ah Mrs Dalloway, eternamente dando festas para disfarçar o silêncio”, diz-lhe a certa altura. E nós descobrimos que também já fizemos banquetes para fugir das nossas sombras.

Adorei os diálogos e os silêncios, o dito e o insinuado sobre a vida e a morte, a liberdade e a repressão. E o final que me surpreendeu – totalmente inesperado – neste fim de semana de princípio de novembro. Em que me senti atraída e acossada pelas horas!

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