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As horas (de um fim de semana)

11 Nov

A tarde

‘Ainda tenho muitas horas deste fim de semana à minha frente’. Dou-me conta disso perto do meio-dia, de um domingo de duas caras – acordei sob nuvens cinzentas, e àquela hora o sol aquece-me a ponta dos dedos. Que novembro generoso!

Espreguiço-me (ou alongo-me?) e revejo as horas do fim de semana, para trás. A noção de tempo provoca-me, apesar de viver cada vez mais o presente. E às vezes assusta-me, semeando-me borboletas no estômago. E vivo assim, entre forças, à procura do equilíbrio.

Encontro-o nas horas passadas em conversa comigo, nas horas que passo com os amigos e com a família, nas horas passadas a tecer projetos e a fazer coisas que me dão prazer.

As horas do segundo fim de semana de novembro começaram na sexta-feira ao fim da tarde, à volta do pequeno prazer de preparar uma refeição saudável para receber uma amiga para o jantar. Celebra-se a amizade, entre assuntos.

E horas depois estamos no espetáculo de Aimee Mann na Aula Magna (em Lisboa). Ligeiramente fora da hora! Quem me conhece sabe que só posso gostar das canções da cantora (guitarrista, baixista e compositora) norte-americana: perfeitas e um pouco sombrias

Aula Magna

A jovialidade de Aimee, que já atingiu metade de século, é extraordinária. E a prova de que é possível ‘parar’ o tempo, e por uma escassa hora ludibriar os ponteiros.

No regresso a casa, embora tarde adormeço a horas. E sem despertador programado, pois decido não ir ao ginásio no dia seguinte, acordo no sábado fora da minha hora.

Deixo o tempo  correr sem pressas, e a meio da tarde sou inspirada por duas horas a não fazer nada: ver um vídeo em casa,  um programa que vinha adiando há algumas semanas. Com  direito a um bom tinto alentejano (também tenho as minhas horas de puro regionalismo!)

E às seis horas, quando as sombras da noite já tinham-se apoderado do meu lugar no sofá, sentei-me indiferente ao colo delas a ver As Horas (The Hours).

Horas

Não me lembrava da história das Horas, o que é estranho pois é muito boa. Já o romance de Virginia Woolf, Mrs Dalloway, que aqui ‘liga’ três mulheres em diferentes tempos históricos, sei-o ao pormenor. Se calhar porque é uma das minhas obras escolhidas!

De plano em plano, o filme percorre passado e presente. Em 1923, Virginia Woolf recupera de um esgotamento nervoso e começa a escrever o romance Mrs Dalloway. Em 1951, o livro da escritora britânica exerce um papel decisivo na vida de uma dona de casa americana que pensa suicidar-se. E em 2001, na de uma editora de Nova Iorque que cuida de um escritor.

Ele está a morrer e provoca-a  continuamente: “ah Mrs Dalloway, eternamente dando festas para disfarçar o silêncio”, diz-lhe a certa altura. E nós descobrimos que também já fizemos banquetes para fugir das nossas sombras.

Adorei os diálogos e os silêncios, o dito e o insinuado sobre a vida e a morte, a liberdade e a repressão. E o final que me surpreendeu – totalmente inesperado – neste fim de semana de princípio de novembro. Em que me senti atraída e acossada pelas horas!

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