Tag Archives: novel

Paraíso e Inferno

9 Sep
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Paraíso e Inferno, de Jón Kalman Stefánsson

Li recentemente Paraíso e Inferno (Cavalo de Ferro), o primeiro volume da trilogia do escritor islandês Jón Kalman StefánssonContinue reading

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Leitura para os próximos dias

8 May
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Mais uma história de Patrick Modiano, depois de Um circo que passa. Continue reading

O ideal só existe na mente

4 Dec

Mulher Certa

Descobri Sándor Márai não há muito tempo. E acho que foi amor à primeira linha. Estreei-me com este livro, A Mulher Certa, em 2010 (pouco depois desta 5ª edição ser lançada). Ao contrário da maioria dos meus amigos que começou por As Velas Ardem Até ao Fim, outra obra do autor húngaro. Penso, até, que a mais conhecida.

Eu comecei por este (já li as Velas, e a Ilha), e este é o meu preferido. Do que trata? Eu diria que é um retrato psicológico de personagens insatisfeitas, frustradas, infelizes e atormentadas. Um romance a três vozes, três suscetibilidades (a de Márika, Péter e Judit) sobre uma história de paixões e enganos, desencontros e desencantos.

Numa cafetaria elegante de Budapeste, Márika conta a uma amiga como descobriu o adultério do seu marido. Na mesma cidade, o homem que foi seu marido, Péter, confessa a um amigo como abandonou a mulher por outra que desejava há muitos anos. De madrugada, numa pequena pensão romana essa mesma mulher, Judit, conta ao amante como ela, de origem humilde, casou com um homem rico para sair da pobreza.

Uma história de amor e da sua ausência, sobre desejo e ciúme e solidão. Relatada numa escrita intensa, perfeita e melancólica, que nos transporta para o tempo narrativo.

Sándor Márai reflete sobre as relações humanas (Lázár explica que os sentimentos podem ser aprisionados pela razão mas não são anulados). E a frustração resultante da idealização. O ideal só existe na mente, como podemos perceber nas palavras de Márika:

“Um belo dia acordei, sentei-me na cama e sorri. Não sentia já dor. E, subitamente, percebi que não existe a pessoa certa. Existem somente pessoas e, em todas elas, um pedacinho da pessoa certa, mas em nenhuma se concentra tudo o que se aguarda e dela esperamos…”

Um livro absolutamente fabuloso. Para ler muitas vezes.

A Ignorância, um romance sobre a memória

8 Nov

Ignorancia MK

Uma mulher e um homem – Irene e Josef – encontram-se por acaso num aeroporto durante uma viagem a Praga, depois da queda dos regimes comunistas do Leste da Europa em 1989.

Os dois estão de regresso ao seu país natal, de onde emigraram duas décadas antes. Têm em comum uma história de exílio, a mesma nostalgia do que deixaram para trás.

Ambos sentem que perderam laços essenciais com a sua terra, impossíveis de reatar. Mas diferentes perspetivas em relação ao futuro.

Irene talvez não regresse a França, apesar da sensação de estranheza que por vezes apodera-se dela (pertencerá mesmo ali?). Josef tem a certeza: está apenas de passagem. Regressará à Dinamarca.

A Ignorância é mais uma excelente história de Milan Kundera. É uma profunda reflexão sobre a emigração (um fenómeno com grande extensão durante o seculo XX) e a condição humana. E uma análise da atualidade.

É um romance sobre a memória, onde o autor deita por terra a ideia de nostalgia.

Recordando a etimologia da palavra (nostalgia), que em grego é “o sofrimento causado pelo desejo insatisfeito de regressar”, defende que este sentimento liga-se também à ignorância: “só há nostalgia do que não temos notícia”.

Como Kundera afirma, “acaso” é outra forma de dizer “destino”. E na memória, eles harmonizam-se.

Entre identidades

23 Oct

A Identidade MK R

Milan Kundera é, decididamente, um dos meus autores preferidos. E este título, A Identidade, um dos meus favoritos. Lio-o este verão quase num só fôlego, e houve páginas em que quase fiquei sem ele.

Um livro provoca-nos para além da genialidade da sua escrita, e no caso de Kundera isso é inquestionável. Quando mergulhar no seu enredo se torna catarse, já não conseguimos parar. E, então, é como se a normalidade nos fosse finalmente restituída.

A Identidade de Kundera fala nisso mesmo: de identidade. De identidades que correm o risco de dissolver-se umas nas outras – Chantal e Jean-Marc amam-se tanto que por vezes parecem confundir-se.

E de crise de identidade. A crise de identidade vivida intensamente por Chantal, a mulher que na sua juventude queria “ser perfume de rosa, um perfume expansivo e conquistador”. E que assim queria “atravessar todos os homens e, através dos homens, a terra inteira”.

E que agora, em plena crise da meia-idade, dá-se conta de que “os homens já não se voltam” por causa dela.

Será que perdeu a identidade de antes? Um ‘clique’, uma ‘promessa’ incerta vai fazer com que ela tente recuperar essa identidade perdida entre dois casamentos e a morte de um filho.

Seguramente um segredo bem guardado, quantas mulheres não se revêm (ou reviram, em algum momento), nesta Chantel que  o olhar amoroso do marido já não pode consolar? “Porque o olhar do amor é o olhar do isolamento.”

Não é deste tipo de olhar que ela precisa, “mas da inundação dos olhares desconhecidos, grosseiros (…) e que poisam nela sem simpatia, sem escolha, sem ternura nem delicadeza. Esses olhares conservam-na na sociedade dos humanos do qual é separada pelo olhar do amor.”

Numa história que pode ser considerada um romance de amor, Kundera explora o universo íntimo da mulher com absoluta mestria.

E do casal, obrigando-nos a conhecer a rede complicada de caminhos que ele percorre, cruzando a fronteira entre o real e o imaginário, numa luta contra o desgaste do tempo.

A lembrar as histórias das Mil e Uma Noites

4 Oct

O primeiro amor 1 recortado

Gostaria de ter ido ouvir Tahar Ben Jelloun explicar a Primavera Árabe à Fundação Calouste Glubenkian o ano passado, no âmbito do Programa Próximo Futuro. Mas por razões que não me recordo agora, faltei precisamente nesse dia.

Por isso, decidi não perder mais nada, e uma semana depois corri a comprar o livro que o escritor marroquino apresentaria também na altura, O Primeiro Amor é Sempre o Último (de 1995), por estar a ser lançado em Portugal.

Foi ‘amor à primeira página’! E à medida que as passava, senti-me cada vez mais fascinada por  aquela escrita viva e vibrante. Rendida a cada um dos seus contos – uns divertidissimos, outros sérios, outros ainda carregados de astúcia – até ao vigésimo primeiro e último

E por vezes, muitas, senti-me transportada para a minha infância. Para os livros que li e que me leram, pois havia – há – naquelas narrativas qualquer coisa de histórias das Mil e Uma Noite.

Penso que foi essa a grande inspiração de Tahar Ben Jelloun. Apoiando-se também na sucessão dos dias dos magrebinos, no seu país de origem, Marrocos, e em França, onde vive, para falar-nos de amor, sexualidade, prazer e dor.

Mas também da dificuldade de comunicação entre homens e mulheres árabes, da incompreensão e da solidão.

São prosas que nos conduzem pela poesia. Histórias que nos fazem viajar de Marrocos à Jordânia, por Paris e Londres.

É possível que haja um conto eleito para cada um que ler este livro de Tahar Ben Jelloun. Eu gostei particularmente de três, mas sobretudo do que dá o nome à obra: O primeiro amor é sempre o último, deixando-vos aqui uma passagem dele:

“… Procuro dormir. Tenho frio. É o medo de nunca conhecer o amor. Um torpor pesa no meu peito. Vou cair e não vou encontrar nada a que me agarrar. É o vazio. O corpo esvazia-se (…). Com o lençol entre os dentes, as mãos colocadas sobre o ventre nú, fecho os olhos.”

O reverso da utopia

6 Sep

PA recortada

Há dois dias dei por mim a pensar na Utopia de Thomas More pouco tempo depois de acordar.  E como se fosse uma música, que passa na rádio e se instala na nossa cabeça, o pensamento acompanhou-me ao longo de todo o dia.

Foi só à tarde em casa, quando me sentei disponível para dedicar pelo menos uma hora à leitura, e já com o romance de Paul Auster – No país das últimas coisas – nas mãos, que compreendi a relação entre uma coisa e a outra.

O universo que Paul Auster nos traz nesta obra é precisamente o oposto do de More, em Utopia. É um mundo de desigualdade, de fome, de destruição.

Atravessamo-lo curiosos pela mão de Anna Blume em carta a um amigo, na sua caminhada à procura do irmão desaparecido numa cidade sem nome. E sentimos o desalento.

O cenário que lá se vive é pós-apocalíptico. A cidade cada vez mais isolada é um campo de batalha onde reina a violência e a miséria. Ninguém consegue lá entrar, mas também é praticamente impossível de lá sair

O que é que aconteceu? O que são as últimas coisas? Tudo o que o homem construiu e foi desaparecendo dia após dia, até ninguém mais se lembrar  ” A vida como nós a conhecemos acabou,  no entanto, ninguém é capaz de entender o que é que a substitui”, escreve Anna.

Perdeu-se o rumo, dá a sensação de se ter voltado ao princípio dos tempos. Na cidade sem nome que Anna atravessa, uns são caçadores, outros coletores – ela própria caça objetos -, resta o suicídio e a morte contratada.

Não há comunicação nem memória, apenas a esperança de Anna Blume de encontrar William. E no final, o seu desejo “de ter a oportunidade de viver mais um dia”. Excelente este título de Paul Auster.

Verdade ou fição?

21 Aug

invisivel recortada

Mais um livro a ocupar este espaço de inspiração. Desta vez Invisível, de Paul Auster. Penso tratar-se do décimo quinto romance do autor norte-americano. Foi lançado em 2009, e é, provavelmente, um dos seus melhores.

A escrita é fabulosa. O enredo absolutamente empolgante e imprevisível, pois apesar do mistério que se instala logo no princípio, com o encontro de Adam Walker, o protagonista, e o enigmático casal Rudolf e Margot, jamais podemos antecipar os acontecimentos que nos vão guiar até ao final.

Estamos em 1967. Adam é um jovem universitário aspirante a poeta. Rudolf um misterioso professor universitário. E Margot a sua namorada. Apesar de prever uma qualquer desgraça resultante daquela relação insólita, Adam não consegue escapar ao perverso triângulo amoroso que se forma entre eles e mais à frente o arrastará para uma inesperada situação de violência.

Afinal quem é Rudolf? O que é que é verdade e imaginação na vida de Adam Walker? No final, talvez caiba a cada um de nós resolver este enigma, contado por três narradores distintos através de diferentes tempos narrativos.

Uma história perturbadora, inquietante. Que acontece entre 1967 e 2007, se revela entre luz e sombra, e nos revela as grandes preocupações da época como a Guerra do Vietname, a colonização francesa na Argélia e na Indochina, e a Guerra Fria.

Eu li Invisível, de Paul Auster em dois dias. Simplesmente não conseguia parar.

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