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Acreditar, do diário “Dos dias do fim”

24 Oct

2018-10-24 17.07.11

2018-10-24 16.46.30

Nos últimos dias, os dias revezam-se: Um cinzento e às vezes com chuva; outro luminoso, o sol a baloiçar num céu azul magnífico. Logo no dia seguinte. Ontem aconteceu um dos primeiros, e eu atravessei a vila velha de tantas subidas, a pé, lá para os lados do castelo, logo depois do nevoeiro ter-se recolhido. Ficaram nuvens negras a pairar sobre a fortaleza, àquela hora atravessada de gentes de muitas línguas.

Hoje, celebro um dos segundos com toda a sua glória. A lembrar os dias de primavera. Ainda guiada pela neblina, de manhã saí para a rua de casaquinho que acabei por pôr e tirar à medida da temperatura das ruas que fui cruzando. Apesar de já não ter febre, a gripe persiste numa tosse profunda que se intensifica à noite – como toda a tosse que se preza! –  impedindo-me de maiores horas noturnas de leitura. Há três anos que não tinha uma gripe assim! E, de repente…

Às vezes, é como se o desânimo quisesse instalar-se dentro de mim por uma qualquer porta ou debilidade física, já que de olhos abertos nunca o deixo permanecer na minha vida mais do que um dia. Nesse, é certo, mergulho bem fundo no inferno das minhas ‘desgraças’, permitindo esta fraqueza de sentir-me malfadada. Choro e grito o silêncio dos deuses. Exorcizo as minhas fragilidades.

Mas tenho um velho contrato comigo: não me deixar abater. Recomeçar a esperança sempre. Acreditar. É fácil? É muito difícil! E tenho tantos mecanismos para chegar lá! Aprendo a respirar para me acalmar.  Acalmo-me respirando. E olhando em volta.  Nestas paisagens magnificas campestres, perto de mim e mais além. Umas vezes mergulhadas de luz, outras de chuva ou nevoeiro, acariciadas pelo vento. Fiz o mesmo na cidade.

Hoje vou acalmar-me com a lua cheia, no primeiro dia de lua plena. Quando formos só nós duas na madrugada, e ela subir ao meu telhado para uma cavaqueira amena. E, então, será paz e tranquilidade em mim. Uma sensação sublime, que nem mesmo o sol me consegue dar!♥

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9 de outubro, do diário ‘Dos dias do fim’

9 Oct

Manhã: Subo o Cerro da Capela de Nossa Senhora das Neves, com a temperatura a aquecer ao sol e a arrefecer à sombra. Há um vento doce no ar.

Há anos que não vinha aqui! E, no entanto, nunca deixei de avistar a pequena ermida que agora me dá os bons dias todas as manhãs quando acordo e as boas noites quando vou dormir. Entro nos seus domínios com o olhar, a partir da janela do meu quarto. É uma moldura fabulosa, sobretudo em noites de quarto crescente. A lua fica ali, um pequeno pedaço de luz curvado, depurada e simultaneamente copiosa. Quase sentada no telhado.

Cá em cima no recinto, por uma questão estratégica, ou talvez não, sento-me numa das laterais da capela – à sombra, enquanto escrevo.

Não vejo a porta do pequeno lugar de oração, nem sequer a cruz (já tirei as fotos com todos esses pormenores), mas isso não importa uma vez que não venho rezar. Sou mais de discutir com os deuses: do Olimpo a Cristo, passando pelo Pai. E quando desesperada, recupero momentos de fé, tendo esquecido todas as orações que a minha mãe me ensinou, coloco as mãos em concha, dedos apontados para cima.

Lá em baixo, a ribeira é um rastro de água entre as margens rochosas e os loendros. No inverno, depois das chuvas, vou voltar ao cerro para vê-la lá em baixa em toda a sua pujança. Por essa altura é que ela é linda! Continua a ser o meu plano preferido a partir daqui, o da Ribeira.

Perto de mim, à altura do cerro da capela, outros cerros aconchegam-se à manhã bonita do princípio de outubro. As copas dos pinheiros de um lado e a dos sobreiros do outro vestem de verdes, do mais claro ou mais escuro, as imensas colinas. Uma depois da outra, com a última a tocar o céu.

Aqui, o Alentejo não é só planície a perder de vista. É muito mais montes a sucederem-se em várias formas e cores, com árvores e arbustos de muitos tamanhos, com um rio pelo meio e uma ribeira pelo meio. E a beleza é muito isto, esta mistura de Natureza à procura do equilíbrio. Uma beleza para sorver em doses curtas, espaçadas no tempo, quando apetecer. O resto é karma, como diria um amigo meu.

Verde, vermelho, verde

12 Feb

verde

vermelho

Walk

Num destes dias em que não choveu por uma hora, em Lisboa. E que eu fiquei perdida em pensamentos nos semáforos. Encontrando analogias entre este piscar de sinais e a vida. A minha. O verde. E depois o vermelho. E depois o verde. E eu deixei passar a oportunidade de atravessar a estrada. Pergunto-me quantas vezes isto me acontece – na vida?! Há dias… horas, momentos de desalento. O que vale é que passam sempre, transformando-se no seu contrário. Passa sempre a desesperança. Mas há dias em que é preciso um esforço maior para manter a resiliência.

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